Contos que nem te conto

5 de outubro de 2018

Uma Visão de Futuro

Filed under: Uncategorized — petrusrocha @ 21:21

Na virada do século XXI para o XXII, a humanidade já estava há vinte anos toda a economia baseada na renda universal. Todos os seres humanos ganhavam um provento mínimo que garantia acesso a alimentos, educação, moradia, saúde e alguns pequenos bens de consumo – sem precisarem trabalhar. Finalmente, a visão de que máquinas substituiriam os homens no trabalho se tornou realidade e só restava às pessoas tempo para buscar cada um a sua felicidade.

E foi quando estourou a revolução. Alguns historiadores põem a culpa nas castas mais altas. Embora não houvesse mais miséria, ainda havia pobreza. Não nos mesmo termos da dos séculos XX e XXI, mas havia uma diferença clara entre o topo da pirâmide e sua base. Só que essa diferença estava consistentemente se extinguindo a cada ano.

E, sem pobres, não há ricos.

E os ricos não gostaram nada dessa perspectiva de mundo.

Outros põem a culpa justamente no próprio sistema. “Mente ociosa, oficina do diabo”, eles afirmaram. De fato, não demorou a mobilização de grandes grupos de pessoas contra aquele formato de sociedade ou simplesmente entediados o suficiente para querer um pouco de ação. Por outro lado, quem tentou defender não tinha treinamento ou organização. Não foi difícil a tomada de poder.

Por fim, alguns poucos acusam o medo de que as máquinas estariam tomando o poder. Efetivamente, elas controlavam todos os meios de produção, cérebros eletrônicos desenvolviam cada vez mais tecnologias de ponta, novos robôs e computadores. Um algoritmo gerenciava a humanidade, antevendo necessidades, evitando excessos e garantindo que todos vivessem em constante bem-estar.

Estariam elas enganando os humanos? Qual seria o ponto em que a ajuda da inteligência artificial passaria a ser uma dominação?

Sejam estes três fatores, separadamente ou combinados, os motivadores do golpe ou não, eles certamente influenciaram diretamente sobre o que veio a acontecer com a população mundial a seguir:

– Fim da renda mínima básica;

– Fim do fim do trabalho para viver;

– Fim da substituição de humanos por máquinas.

Nos primeiros anos, principalmente a última mudança resultou em um impacto enorme na qualidade de vida do planeta: nenhum ser humano tem a capacidade produtiva de uma máquina. Fome, pestes, miséria, desastres naturais e guerras assolaram a Terra. Essa fase ficou conhecida na história como “Mini Século XX”.

Em algum momento do início da segunda década do século XXII, alguém se lembrou da tecnologia desenvolvida pelas máquinas, mais especificamente das melhorias cibernéticas. Começou-se a criar humanos alterados, capazes de fazer verdadeiras proezas com seus membros mecânicos e melhorias eletrônicas. E que, é claro, tentaram assumir o poder.

Se tivessem esperado para aumentarem seus números, certamente teriam tido sucesso. Mas, como foram afoitos, a rebelião foi sufocada rapidamente.

As castas superiores, aprendendo com seus erros, decidiram dar poder limitado aos trabalhadores. Cada um teria a capacidade de uma – e somente uma – ferramenta. Uma função. Enquanto isso, o resto do corpo continuaria frágil como sempre.

Assim surgiram os ferramanos, as ferramentas humanas. O nível de especialização foi tanto que as castas se reagruparam de acordo com cada tipo de tarefa realizada: os martelos só andavam com os martelos, os serras com os serras etc.

A excessiva objetificação da classe trabalhadora gerou condições de trabalho e de vida desumanas sem que os próprios percebessem a diferença. Naquele momento, as altas castas levavam tão a sério sua designação e não mais viviam no planeta Terra, mas em cidades espaciais estacionárias.

Assim, os ricos não precisavam se incomodar com os pobres e nem se sentirem mal por eles. Por outro lado, o populacho já não tinha mais ideia do que era ser um ser humano adulto normal. Afinal, as chocadeiras cuidavam das crianças do momento em que nasciam até atingirem a maturidade do corpo, paravam de crescer e assumiam seu lugar na sociedade como um ferramano.

Quando surgiram as máquinas biológicas, a dissociação entre a humanidade alterada terrestre a dos não-alterados orbitais era tanta que o conflito era iminente. Ter tornado os ferramanos obsoletos foi só o gatilho.

As máquinas orgânicas eram máquinas vivas, feitas de compostos orgânicos, células. Elas viviam e morriam. E comiam. Aliás, comer – e cagar, era sua principal função. Elas podiam ser facilmente programadas para produzir praticamente qualquer coisa. Bastava serem alimentadas o suficiente com as matérias-primas certas. Elas digeriam, metabolizavam e expeliam o produto final, já pronto para o uso. Daí seu carinhoso apelido pelos ferramanos de “cagadoras”.

Com cada orbital com sua máquina biológica em casa, não havia mais necessidade de fábricas, caras e cheias de objetos queixosos e pouco importantes na superfície. Em uma sociedade baseada no uso que se tem de cada indivíduo, entrar em desuso foi a morte. Ou a rebelião.

Na metade do século XXIII, começaram as primeiras batalhas dos planetários ferramanos contra os orbitais e seus cagadores. Fontes de matéria-prima foram atacadas, gerando escassez em órbita. As máquinas orgânicas começaram então a cagar bombas direto na Terra – não precisavam nem de lançadores.

O estrago na superfície foi tremendo. Muitas pessoas morreram e o meio-ambiente foi profundamente afetado. Estima-se que a população tenha sido reduzida a 10% de seu total pré-guerra. E, apesar das bombas, fome e doenças foram os principais causadores desta mortandade toda.

Quando finalmente parou de chover fogo e dor, os ferramanos estavam prontos para se renderem. Mas ninguém apareceu lá de cima.

A falta de matérias-primas já alarmantes no pré-bombardeio se tornou insustentável com o esforço de guerra. Os recursos foram direcionados para os caga-bombas. A ideia era de que, quanto antes conhecessem os planetários a devolverem o que lhes pertencia por direito, antes todos teriam recursos de novo. Mas o custo das bombas foi mais alto do que o esperado. E muitos morreram de inanição ou asfixia.

Além disso, a teoria inicial dos ferramanos de que as máquinas orgânicas eram na verdade humanos alterados se mostrou verdadeira. Em parte. Não eram exatamente gente, mas células humanas foram usadas para montar seus organismos. Com uma alimentação pobre em nutrientes, as máquinas começaram a ficar doentes e a quebrar.

Chegou-se ao ponto de terem que escolher entre acabar com os bombardeios ou morrerem de fome. Algumas cidades não tomaram a decisão a tempo e expiraram, vindo a chocar contra o planeta ou sair de órbita rumo ao infinito do espaço.

Aquelas que sobreviveram – se há algum ainda com seres vivos dentro -, continuam em órbita, sem contato com o solo. Alguns estimam que usaram os recursos restantes e as máquinas orgânicas para criarem infraestrutura para algum tipo de cultivo de subsistência. E decidiram não se misturarem mais com os planetários.

Há quem diga que as cidades que saíram de órbita foram propositalmente lançadas ao vazio e há pessoas vivas vagando pelo universo ou em outros planetas. Há quem diga que não há mais orbitais vivos. Tem quem acredite que as cagadoras ainda estão lá, consumindo os restos mortais de seus mestres.

Enquanto isso, na Terra, estamos no ano de 2275. Estamos em relativa paz. Não há lideranças ou governo. Não há economia também. Todos funcionam como uma colmeia, cada qual com uma função, contribuindo igualmente para o bem de todos. O planeta ainda se recupera dos bombardeios, mas o que tem, dá para vivermos bem.

Ainda não foi dessa vez que a humanidade se acabou.

Ainda.

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18 de setembro de 2018

Pagando de Stephen King

Filed under: Uncategorized — petrusrocha @ 22:54

Eles viajavam no carro discutindo animadamente sobre o que viriam a fazer.

Jorge e Dani, como todo casal junto há 15 anos, concordavam mais do que discordavam, enquanto Fil, como um bom duas vezes divorciado, parecia discordar de quase tudo o que eles falavam. Eles não se preocupavam muito com a gente, muito menos com a nossa opinião no que pretendiam fazer.

Naquele momento, era praticamente como se não estivéssemos no carro: um bebê de um pouco mais de um ano, Bê, um moleque que só vazia merda de 10 anos, Jonas, e eu, arrastado pra esse road-trip de merda quando podia estar pegando gatas de 18 anos nas praias durante minhas férias.

[Ok, podia estar tentando pegar gatas de, no máximo, uns 16 anos, minha idade.]

[Tá, meu nome é Lipe e dificilmente poderia pegar uma garota de 14 anos.]

[Merda!]

Enfim, eu tentava não me envolver na discussão já que, além de não ter sido convidado, sempre acabava comigo discutindo com o meu pai. É, Fil é o meu pai e parece que eu também tenho um bom potencial pra divórcios, já que discordo de quase tudo que qualquer pessoa fale. Ou talvez sejam os hormônios. Espero que sejam hormônios.

Eles continuavam discutindo se deveriam ou não fazer essa parada no bar dos Machetes enquanto eu tentava focar nas nuvens lá fora. Fil era a favor, Jorge e Dani eram ligeiramente contra, mas com vontadinha de fazer merda. Jonas, meu meio-irmão, estava apostando consigo mesmo (ou talvez seja comigo, não tava prestando muito atenção nele) quem lia mais placas pela janela. Parecia um mantra interminável de palavras desconexas que invadia a minha mente pelo subconsciente, atrapalhava a minha alienação e me irritava de uma forma que não havia como descrever além de hecatombismaticamente.

Então, sentei-lhe o braço.

Normalmente, eu aviso antes pra parar, mas ele já tinha me enchido saco há tanto tempo, que só me restava socar o braço dele. Foi bom, porque acabou de uma vez com o mantra e com a discussão. Foi ruim porque tomei um esporro e fiquei sem mesada. Vacilo ficar sem mesada.

Acabou que completamos o resto do percurso todos em silêncio até chegarmos ao tal do bar dos Machetes. Parece que eram uma gangue de motociclistas barra-pesada de quando meus pais eram moleques e que, diziam as más línguas, eram satanistas. Resumo da história: eles eram irados. Alguém que também achava que eles eram irados tinha comprado o bar depois que eles morreram, mantiveram toda a decoração, acrescentaram mais alguns recortes de jornais e fizeram um bar-museu em homenagem aos caras.

Como era de se esperar, tava vazio. Era um monte de quinquilharia pendurada nas paredes, decorações absurdas de caveiras e machetes e recortes de jornal acusando eles de algum crime, geralmente envolvendo morte, roubo, drogas, violação de túmulos ou tudo junto e misturado. Parecia mesmo um quarto de um nerd dungeon master que levou muito a sério a ideia de poder viver dentro de uma masmorra medieval.

Ou seja, escroto.

Fil não apreciou muito minha inocente avaliação sincera e isenta. Juntando com o fato de que acharam que era muito violento para o Jonas, lá fui eu esperar no carro com os dois pirralhos enquanto eles se divertiam lá dentro com vai-entender-o-quê. Botaram até uma música bizarra com um monte de caras cantando em coro “rumba-iá, rumba-iá, rumba-iá”. Quem diria que motoqueiros durões se pareceriam tanto com escoteiros?

Foi nessa hora que o motor do carro ligou sozinho e o carro saiu andando com a gente dentro. Não, eu não tava dirigindo, não importa o que tenham dito ou o que o mentiroso do meu meio-irmão não tenha desmentido! Ele tava andando sozinho! Eu fiquei, inclusive, no banco de trás do carro, com o Bê entre eu e o Jonas.

A porra da música lá do bar começou a tocar no rádio do carro e eu não sabia pra onde ele tava levando a gente. Mandei o Jonas botar o cinto, amarrei bem o Bê e botei o cinto também, esperando a merda acontecer. Mas até que o carro dirigia direitinho. Levou a gente sem incidentes até uma mansão enorme.

Foi aí que a merda finalmente aconteceu: o carro acelerou pela porta de entrada da casa e ficou tentando subir a escada pro segundo andar. Só conseguiu destruir a escada e ferrar a frente do carro. Sorte que não tinha ninguém por lá.

Quando os policiais chegaram, foram logo me acusando, lógico. Fodam-se eles! Eu não fiz nada e tava na minha no banco de trás.

[Tá, eu tava berrando e me cagando de medo no banco de trás, mas, pra fins de entender o que aconteceu, eu continuo não tendo feito nada de errado]

O babaca do Jonas nem pra me defender, ficou calado. Acho que ele até se divertiu de me ver me fudendo. Não adiantou nem o Fil dizer que viu quando o carro saiu do bar que eu tava no banco de trás. Acho que eles pensaram que meu pai tava querendo me defender ou algo assim. Até parece…

Sei que agora a gente tá preso nessa cidadezinha do interior, dormindo de cortesia no hotel do bar dos Machetes. O dono se sentiu mal por tudo o que aconteceu e resolveu ajudar a gente até segunda, quando a oficina mecânica vai abrir e poderemos ver o estrago no carro.

Eu poderia até estar reclamando de perder dois dias da minha vida aqui nesta bosta. Ou de estar de castigo e possivelmente levar uma multa sem nem ter dirigido ainda na vida! Ou até dos adultos terem ido pro bar se divertir hoje à noite e me largado de novo com os pirralhos.

Mas eu tô aqui, me cagando de medo no escuro do quarto, ouvindo o Bê, um bebê de um pouco mais de um ano e que mal consegue falar “mamá”, cantando claramente “rumba-iá, rumba-iá, rumba-iá” e gargalhando.

Fu.

Deu.

23 de agosto de 2016

Desconectada

Filed under: Conto — petrusrocha @ 02:02

A primeira coisa que ouviu foi o nada, o silêncio, o vazio. Logo, ele foi sendo ocupado pelo ruído da vida à volta – não a vida à qual passou a vida ouvindo e ao qual estava acostumada, mas a vida real, a vida de verdade que havia “lá fora”, como costumava dizer aos colegas.

Depois de 50 anos com o implante na cabeça, realmente parecia certa a denominação de “lá fora” à que se referia em relação aos sons. Com o dispositivo, todos ficam conectados à rede 24 horas por dia, sem interrupções – a empresa que o distribui faz um bom trabalho. Todos que quiserem falar com você, todas as notícias que você quiser saber, todas as músicas que quiser ouvir, tudo-tudo você ouve dentro da cabeça. O aparelho usa seu próprio crânio como caixa de som, o que impede os outros de escutarem também. Não chega a atrapalhar de escutar a buzina do carro, a conversa com o amigo ou o grito das crianças, mas não deixa ouvir o barulho da vida.

Agora, os passarinhos cantam nas árvores, os passos ressoam no assoalho e os motores dos carros ronronam pela rua. Segundo o técnico que fez a retirada, com o tempo, os menores sons se tornarão cada vez mais perceptíveis, basta os ouvidos se acostumarem de novo. “É o que dizem”, complementa o jovem, cujas primeiras lembranças já foram permeadas pelo implante e que não entende o porquê de alguém viver desconectado.

“Deixa ele.”

Uma mulher disse em algum lugar próximo, provavelmente no consultório ao lado, e ela riu achando graça daquele choque geracional. “Tenho mais o que fazer, muito mais o que ouvir” disse para o rapaz. Recebeu suas recomendações do pós-operatório e foi para casa andando – nada de eletrópodo, discos de longa distância e muito menos teleportes. Ela queria passear pelo meio da vida da cidade e sentir cada nuance dos sons vibrantes que ela tinha a oferecer. Foi se deixando levar a esmo pelo zumbido da eletricidade de um mundo eletrônico.

“Que gostoso!”

Nossa, quem quer tenha sido essa mulher que passou e disse isso, ela conseguiu definir exatamente o que ela queria falar. “Realmente, muito gostoso”, disse, como que respondendo à mulher.

Em casa, passou a perceber seu ambiente como nunca antes. Se ela achava que conhecia sua moradia completamente, passou a vê-la de outra forma: de olhos fechados. Sem nada ver, enxergou cada ruído que saía de cada canto de seu lar e se deliciou de seus distintos sabores.

“Cara, que demais!”

É mesmo, mas quem é essa mulher? É a mesma mulher? Na minha casa? No vizinho? Ela é vizinha minha?

“Será?”

“Tem alguém aí?” – ela disse – “Isso não tem graça!”. Mas apenas o silêncio ruidoso de um apartamento em uma metrópole respondeu de volta.

“É, não tem ninguém.”

Aí começou a ficar assustador. Tentou ligar para a polícia.

“Você não tem mais o implante! E nem telefone, burra!”

Aquela mulher sabia demais da sua vida! Como ela poderia saber? Ela estava no consultório? “Socorro!”

Ela saiu correndo do prédio e correu pela rua sem saber para onde, onde se esconder.

“Na casa da mãe? Da melhor amiga? Do primo?”

Onde quer que pensasse em ir, aquela mulher parecia saber também e esfregar na cara dela o quanto a conhecia e como se mostrava inútil fugir. “Não, nada disso! Eu preciso ir a algum lugar inesperado, algum lugar onde ninguém esperaria me ver.”, disse em voz alta para si mesma, se convencendo de ser um bom plano.

Quando chegou à beira da praia, se sentiu mais segura. “Não tem ninguém aqui no meio do inverno e não tem onde alguém se esconder.”. Só, no meio da areia, ficou ainda um tempo olhando ao seu redor à procura da mulher que a perseguia.

“Sozinha…”

“Sozinha…” Ela e a mulher falaram ao mesmo tempo. Como podia? Onde estava essa mulher? Impossível!

Mas, agora que haviam falado juntas, percebeu como a voz dela era parecida como a sua. Muito parecida.

“Estou ficando…”

“…louca?” Terminar as frases da outra mulher não ajudou em nada na sua lucidez. “Essa voz está na minha cabeça!”. Sim, ela ouvira a voz e não tinha saído da sua boca.

Que brincadeira era aquela? Por que tinha uma voz igualzinho à sua falando dentro da sua cabeça? Será que o técnico tinha implantado outro dispositivo? Só podia ser isso!

“Por que alguém faria uma maldade dessas? Que brincadeira de mau gosto! Eu só queria ouvir o silêncio!”. Enquanto chorava e ouvia a voz, buscou um papel nos bolsos para limpar o nariz e encontrou as recomendações pós-operatórias.

“Preciso focar em alguma coisa, esquecer a voz. Me esquecer. A voz dela. A voz!” E começou a ler, com a voz acompanhando. “Você passou por uma operação de retirada do implante coclear blá-blá-blá Se sentir algumas dores nos primeiros dias, tome blá-blá-blá Algumas pessoas podem experimentar tonteiras, que passarão dentro de blá-blá-blá ATENÇÃO”

Neste momento a voz parou e quem pronunciou as palavras foi sua própria boca: “Se você começar a escutar vozes dentro da cabeça, vozes que parecem muito com a sua e que perseguem aonde você for, procure ajuda imediata! Você provavelmente não está louco, essa voz é sua, é sua consciência, seus pensamentos. 80% das pessoas escutam essa voz pela primeira vez após a retirada do implante coclear. 90% tentam o suicídio por não saberem lidar com seus próprios pensamentos. A recolocação do implante pode ser indicada e tem resultados positivos nas pessoas afligidas de mais de 60%. Busque seu psi-engenheiro de confiança imediatamente.”

19 de agosto de 2013

Piada de mau gosto da vida

Filed under: Conto — petrusrocha @ 21:36

Do nada ela apareceu. Onde antes havia um coroa guitarrista com cheiro de cigarro e maconha – além de um péssimo hábito de afinar seu instrumento de madrugada – agora estava ela. Me disseram que morreu há uma semana. O coroa, não ela. Bem que percebi que vinha dormindo muito melhor mesmo.

A mudança foi para muito melhor. Pena do cara, mas ele nunca teve a bunda que ela tem. Aliás, tudo começou por aí: pela paixão nacional. Eu estava saindo do apê quando ela estava abrindo o seu e entrando. Só deu tempo de ver seu petit-derriére.

Petit o caralho! Era uma senhora busanfa, com nota 10 em três dos quatro quesitos da bela-bunda: tamanho, volume e apresentação. Só faltou atitude, mas aqueles poucos segundos em que a avistei foram poucos para determinar isso.

Preconceituoso, logo pensei que mulher gostosa assim, certamente era feia. Raimunda, certo. Ledo engano! A mulher era linda, olhos verdes, pele branca, cabelo negro levemente ondulado e umas sardinhas discretas para dar o toque de originalidade à beldade.

O breve instante em que a vi dentro do elevador enquanto a porta se fechava na minha cara e ela descia, me deixando estupefato onde estava, foram suficiente para me marcar. Mas o episódio deixava claro que, apesar de gostosa e bonita, claramente era escrota. Nem segurou a porta do elevador pra mim.

Eis que, no encontro seguinte, ela vem me pedir desculpas pelo ocorrido. Afirma ter se enrolado com os botões e que, quando finalmente encontrou o correto, já tinha descido dois andares. Seu jeitinho meigo e estabanado quebrou totalmente minha posição pré-estabelecida para ela de leve desinteresse combinado com sutil irritação por ter sido tirado de seu caminho.

A verdade é que me derreti por ela assim que me alcançou para pedir perdão. E me apaixonei ao perceber ser uma pessoa simpática, carismática e com um dos sorrisos mais desconcertantes já vistos na face da terra. Todas as suas sardinhas se juntam no canto de cada boca e somem numa irresistível covinha. Demais.

Mulher assim com certeza tem dono. Ou dona. Fato. Ninguém deixa esse peixão escapar. Mas entrou dia, saiu dia, semana após semana, mês após mês e nada de ver a garota acompanhada. Pelo contrário, formamos uma amizade bem gostosa e em que frequentamos um a casa do outro. Conversamos sobre filmes, livros, futebol, política.. o que quer que surgisse, ela chegava junto e papo era sempre legal.

Ninguém mais na jogada e ela ali dando condições, não tinha nem o que pensar. Finalmente parti pra cima, tomei uma atitude e convidei pra sair. Ela se fez de sonsa, disse que ia chamar uns amigos pra deixar legal, mas deixei claro que era programa para dois. Ela não se fez de rogada e aceitou.

Começamos um relacionamento fantástico, com muita cumplicidade e paixão. Ela pediu para esperarmos para ir para a cama pois o sexo sempre estragara seus relacionamentos anteriores e ela gostava muito de mim; queria ter certeza. Minha certeza não cabia mais em mim, mas eu respeitei sua vontade. Eu também estava bastante envolvido naquilo e não queria pôr tudo a perder por boba ansiedade.

Numa bela noite, quando as estrelas se alinharam, a lua parecia gigante e o espumante descia como de cascatas goela adentro, ela me disse estar pronta. Tinha certeza de que eu era o cara de sua vida e que queria dar o próximo passo. Prontamente ecoei suas palavras sentindo cada letra e me perdendo de vez naquela paixão.

Calmamente, mas com sofreguidão, nos despimos, nos fizemos carinhos, nos apalpamos e nos descobrimos. Não havia um centímetro do corpo dela que eu não tenha passado a conhecer – e ela podia dizer o mesmo de mim e do meu corpo. Eu era dela, e ela minha.

Nossos corpos se misturaram, se remexeram, dançaram e a sofreguidão só fazia aumentar. Fiz questão de esperar por ela, a primeira vez tinha que ser perfeita, nada poderia atrapalhar. Em meio à apoteose de nossos corpos, a sincronia se fez presente, anunciando a explosão que estava por vir e, no último segundo, decidi que deveria esperar que ela viesse primeiro e não perder seu rosto angelical em sua plenitude.

Assim, concentrei minhas atenções nela e deixei que a vida me desse aquele lindo presente em seu formato mais lindo. Discretamente observei cada nuance de sua face, cada expressão de seu corpo, cada cheiro de sua essência, cada som que saía de sua boca, por mais leve que fosse.

E foi nesse momento, em que todos os meus sentidos estavam completamente focados nela, que o ritmo finalmente chegou ao seu ápice e ela finalmente gozou:

“Ué!”

A surpresa foi tão grande que deve ter ficada estampada no rosto e ela achou que fosse êxtase. Não, foi horror, foi medo, foi espanto, foi… foi uma brochada épica. Como assim, no meio da foda, no ponto máximo, a mulher goza que nem o Costinha. “Ué!”

Dei uma desculpa de que estava cansado e chamei para a conchinha para dormir. Ela aceitou de bom grado, sem perceber o que estava acontecendo, e se aconchegou nos meus braços. Ela dormiu como um bebê durante toda noite, linda como sempre. Já eu não consegui pregar os olhos.

De manhã, ela me convidou para uma acordada feliz, mas disse que precisava sair cedo por conta do trabalho. Lhe dei um beijo a contra-gosto e saí de seu apartamento. Não conseguia tirar aquele episódio da cabeça! O que fazer? Uma mulher linda, gostosa, interessante, maravilhosa…

Agora tudo se explica: a falta de companheiro, o medo de transar, “sexo sempre estraga as minhas relações”. Mais é claro! Você goza que nem o COSTINHA!

Ela bate à porta chamando por mim, preocupada se estaria tudo bem comigo, com a gente. Finjo que não estou, já fui pro trabalho, me escondo, me fujo, não me quero aqui agora nem nunca mais.

Ela desiste, aceita a fuga e vai embora. Eu fico no escuro do meu apartamento, desolado. O que fazer? Isso é de menos, besteira completa. O que é um simples som frente ao amor da sua vida? Sim, o amor da minha vida! Ela é a mulher da minha vida e não há nada que possa mudar isso. Larga de ser besta e seja homem!

Resolução feita, confiança readquirida, hora de ir pro trabalho. E, de noite, mostrar pra ela que não há nada de errado, está tudo certo. Mais que certo! Está tudo perfeito!

Só que, no trabalho, me aparece o Silveira com um vídeo genial no Youtube, uma piada incrível de um comediante que ele não conhecia. O que conhecem esses moleques de 21 anos que vêm fazer estágio com a gente, além de vídeos engraçados no Youtube.

Dado o crédito aos conhecimentos do rapaz, abro o vídeo; e quem eu encontro? Ele, minha desgraça, o motivo da queda do meu império romano, meu anti-cristo: Costinha. Tão surpreso com o mau gosto para piadas do destino, fiquei ali, os olhos envidrados na tela do computador, assistindo à performance do finado.

Ainda estupefato e sem reação, em determinado momento percebo que meu corpo está reagindo sim. Uma parte dele, pelo menos. Enquanto ouvia a voz do comediante e suas arrematadas com o clássico “Ué!”, eis que minha virilidade começa a se mexer, se animar, ganhar força entre minhas pernas.

Eu luto contra aquilo, brigo com ele, mando ficar quieto; mas de nada adianta. O Costinha falava e o bicho crescia. Saí correndo do escritório, da minha vida, do mundo. Sumi. Nunca mais ouvi falar dela. Para falar a verdade, nunca mais ouvi falar de ninguém, nem de mim. Entrei para um mosteiro de padres com voto de silêncio e tenho mantido minha vida e minha mente focadas em um só objetivo: nunca mais pensar no Costinha.

11 de outubro de 2012

O Velho e o Caminho

Filed under: Conto — petrusrocha @ 14:48

No meio do caminho
havia um velho.
Havia um velho
no meio do caminho.

Com sua cadeirinha
se sentou no meio da calçada.
Com a vista alçada
acompanhava o que ia e vinha.

O rosto talhado,
o traçado de uma vida
sobre uma pele curtida
e o olhar aguçado.

Não se move,
não reage ou rege
seu rosto protege
pensamentos que demove.

Ele vê você chegar
com ou sem julgamentos
com ou sem sentimentos
e te vê passar.

E você passa sem saber
se quem se move é o mundo
ou se o velho, que bem no fundo,
é que faz o mundo se mover.

No meio do caminho
havia um velho.
Havia um velho
no meio do caminho.

27 de janeiro de 2011

Pedro, de onde veio?

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 14:30

Pedro achou a fotografia
Da mãe grávida barriguda
Mesmo preparada para este dia
A mãe soltou um “Deus nos acuda”.

Pedro “A Pergunta” fez:
“De onde foi que eu vim?
Como se fazem os bebês?”
E a mãe: “Tenha piedade de mim”.

“Pedro ainda é muito novo
Para saber de homens e mulheres
Mas não quero inventar nada de ovo,
De abelhas, de cegonhas ou outros seres”.

“Pedro, meu filho amado,
É tudo parte de um processo
O amor é algo bem complicado
Mas é fundamental para o sucesso”.

“Pedro, quando seu pai e eu nos casamos,
Nosso amor nos juntou
E quando um filho imaginamos,
Foi ele quem possibilitou”.

“Pedro, hoje um você pode ser,
Porém você já foi dois
Metade com seu pai à mercê
De juntar com a minha depois”.

“Pedro, aquele mesmo amor
Que juntou seu pai e eu
Grudou suas metades e protegeu
Na minha barriga da dor”.

“Pedro, aqui dentro fiquei te ninando
Eu cantava, você dançava
E, num dia que eu muito esperava,
Você saiu, lindo e chorando”.

Pedro só faz crescer, agora
De duas metades, em um inteiro
“Ai, mãe, vê se não chora”
Diz, todo serelepe e arteiro.

5 de novembro de 2010

Pedro pelas ruas

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 13:57

Pedro pelas ruas caminhava
Com a mãe acompanhando
Que da escola o levava
Para casa, as mãos dando.

Pedro andava distraído
A mãe chamou sua atenção
Avisou que teria caído
Se não olhasse para o chão.

Pedro para baixo olhando ia
Quase virado como carta de baralho
A mãe advertiu que o olhar levantaria
Se não quisesse bater n’algum galho.

Pedro, um olho na terra, outro na Lua,
Quando a mãe o parou, espantado
“É importante, ao atravessar a rua,
Não deixar de olhar para os dois lados”.

Pedro, faltando olhos pra tudo olhar
Parou na calçada aturdido
Já começando a choramingar
Pediu ajuda à mãe, perdido.

“Pedro, olhe atento para frente,
Veja embaixo, veja em cima.
Para os dois lados cuidadosamente
Cruzando a rua, a cada esquina.”

Pedro, agora, anda pela rua feliz
Despreocupado, não há melhor oferta
A caminho de casa, sob o céu anis,
Estar de mãos dadas com a mãe alerta.

28 de outubro de 2010

Super Pedro, super doente

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 16:52

“Pedro, meu filho coitado
Com gripe, fique deitado.”
“Quem disse que estou doente?
Tenho é superpoderes, é evidente!”

“Pedro, meu filho febril…”
“Febre? Onde já se viu?”
Ele diz ter o poder de esquentar:
“Com o corpo em chamas vou ficar!”

“Pedro, meu pobre filhinho,
A febre te deixou suadinho.”
“Febre e suor, do que está falando?
Em água meu corpo está se tranformando!”

“Pedro, e esse espirro feio?”
“Cuidado, mãe, pra não ficar no meio.”
“Como assim, filho, não entendo?”
“Estou é treinando meu sopro-vento!”

“Pedro, pare de bobeira,
Doença não é brincadeira.”
“Ai, mãe, não brigue pois eu não minto,
Achei ser super, mas fraco é como me sinto!”

“Pedro, logo-logo você fica bem,
É só descansar e beber água também.”
“Quando crescer, o super-homem eu vou ser
Além de um super-médico, você vai ver!”

29 de setembro de 2010

Pedro e a Lua

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 23:13

Pedro, o serelepe
Triste, sai do colégio sério
Sua mãe tira seu quepe
E tenta resolver este mistério

– Pedro, o que acontece?
– Ai, mãe, algo me entristece
– Conte-me, filho, se é que consegue
-Ai, mãe, é a Lua que me persegue

Pedro, o inventivo
Deixa a mãe perplexa
Que situação complexa
A de ter um filho criativo

Pedro, a face franzida
Mostra à mãe divertida
Que é séria a situação
E não para gozação

Pedro, o perseguido
Pelo terceiro dia seguido
Acusa o rosto redondo da lua
De acompanhá-lo pela rua

Pedro, cheio de medo
Aponta para atrás da escola
E a mãe, com ar surpreso
Vê o satélite que descola

Pedro tinha razão
Diz a mãe olhando o edifício
Parece um espião
Pensar distinto é difícil

Pedro e a mãe, de mãos dadas
Seguem seu caminho, calados
Disfarçadamente dando olhadas
E ficando sempre espantados

Pedro jantou sem fome
E a mãe o deixou cedo dormir
Não queria o filho insone
Para a sua cisma diminuir

Pedro acorda assustado
Com o luar invadindo seu quarto
A mãe, quase tendo um infarto
Escuta o filho revoltado

Pedro, com a Lua, se exalta
E com ela a educação falta
Deixa a mãe, atrás da porta
Ruborizada enquanto o exorta

Pedro fez por onde
E espantou o celeste astro
Que atrás das nuvens se esconde
Some sem deixar rastro

Pedro, o exitoso
Dorme o sono descansado
A mãe, feliz com o vitorioso
Beija sua testa com um orgulho danado.

Para Pedro, meu xará super criativo de 3 anos
e sua mãe Juliana

1 de setembro de 2010

Diário de Merda – The Good, the Bad and the Ugly

Filed under: Conto,Diário de Merda — petrusrocha @ 17:11

Das coisas que as mulheres fazem para manipular os homens, elogios é o que funciona que é uma beleza comigo.

Estou tentando sair com uma vizinha que é gata demais e acabou de terminar o namoro. Trabalho de ombro amigo, mas sempre elogiando ela. “Você é linda demais para ficar assim. Aquele babaca não te merece.” Essas cafajezices que homens falam e as mulheres sabem o que são.

Mas funcionam. Ela me deixou entrar na sua vida e volta e meia jantamos juntos na sua casa. Estamos nos conhecendo.

Fato é que eu gosto de cozinhar, então sempre ajudo na cozinha. Corto isto, mexo isso, pego aquilo. Quando percebi, já estava instaurado que eu sou o cortador oficial de cebolas. Porra! Odeio cortar cebolas!

A seguir, passei a acumular o cargo de limpador oficial de carne. Você sabe quanto tempo eu passo limpando a porcaria da carne, tirando cada gordurinha que ela não gosta?

Como eu cheguei onde estou? Tudo por causa dos malditos elogios. “Nossa! Você corta a cebola tão melhor que eu! Olha como fica pequenininha!” ou “A carne está maravilhosa! Como você conseguiu limpar tão bem sem jogar fora metade da carne?”
– Segredo de Família.
Ok, eu também não me ajudo. Burro!

O lado bom disso é que passamos muito tempo juntos conversando e nos conhecendo. Acho que tenho futuro aí.

Merda de Hoje: The Good, the Bad and the Ugly

Hoje, especificamente, fui três vezes ao trono. Não me senti mal ao longo do dia, mas as vontades de reinar vieram e fui lá realizar o desejo dos meus súditos e jogá-los na piscina.

O primeiro nasceu bonitinho, sem problemas, tudo como deveria ser. O segundo não saiu legal, não muito sólido e me deixou meio mal na hora. Agora, o terceiro foi horrível. Sem forma, fedendo horrores, me deixou frouxo e me sentindo um saco de batatas vazio.

Pensando aqui com os meus botões o porquê disso, só me vem à mente a salada que comi no almoço. Viu? Fico querendo ter uma alimentação “saudável” e é nisso que dá.

Moral da História: Essas coisas naturais fazem mal à saúde.

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