Contos que nem te conto

23 de agosto de 2016

Desconectada

Filed under: Conto — petrusrocha @ 02:02

A primeira coisa que ouviu foi o nada, o silêncio, o vazio. Logo, ele foi sendo ocupado pelo ruído da vida à volta – não a vida à qual passou a vida ouvindo e ao qual estava acostumada, mas a vida real, a vida de verdade que havia “lá fora”, como costumava dizer aos colegas.

Depois de 50 anos com o implante na cabeça, realmente parecia certa a denominação de “lá fora” à que se referia em relação aos sons. Com o dispositivo, todos ficam conectados à rede 24 horas por dia, sem interrupções – a empresa que o distribui faz um bom trabalho. Todos que quiserem falar com você, todas as notícias que você quiser saber, todas as músicas que quiser ouvir, tudo-tudo você ouve dentro da cabeça. O aparelho usa seu próprio crânio como caixa de som, o que impede os outros de escutarem também. Não chega a atrapalhar de escutar a buzina do carro, a conversa com o amigo ou o grito das crianças, mas não deixa ouvir o barulho da vida.

Agora, os passarinhos cantam nas árvores, os passos ressoam no assoalho e os motores dos carros ronronam pela rua. Segundo o técnico que fez a retirada, com o tempo, os menores sons se tornarão cada vez mais perceptíveis, basta os ouvidos se acostumarem de novo. “É o que dizem”, complementa o jovem, cujas primeiras lembranças já foram permeadas pelo implante e que não entende o porquê de alguém viver desconectado.

“Deixa ele.”

Uma mulher disse em algum lugar próximo, provavelmente no consultório ao lado, e ela riu achando graça daquele choque geracional. “Tenho mais o que fazer, muito mais o que ouvir” disse para o rapaz. Recebeu suas recomendações do pós-operatório e foi para casa andando – nada de eletrópodo, discos de longa distância e muito menos teleportes. Ela queria passear pelo meio da vida da cidade e sentir cada nuance dos sons vibrantes que ela tinha a oferecer. Foi se deixando levar a esmo pelo zumbido da eletricidade de um mundo eletrônico.

“Que gostoso!”

Nossa, quem quer tenha sido essa mulher que passou e disse isso, ela conseguiu definir exatamente o que ela queria falar. “Realmente, muito gostoso”, disse, como que respondendo à mulher.

Em casa, passou a perceber seu ambiente como nunca antes. Se ela achava que conhecia sua moradia completamente, passou a vê-la de outra forma: de olhos fechados. Sem nada ver, enxergou cada ruído que saía de cada canto de seu lar e se deliciou de seus distintos sabores.

“Cara, que demais!”

É mesmo, mas quem é essa mulher? É a mesma mulher? Na minha casa? No vizinho? Ela é vizinha minha?

“Será?”

“Tem alguém aí?” – ela disse – “Isso não tem graça!”. Mas apenas o silêncio ruidoso de um apartamento em uma metrópole respondeu de volta.

“É, não tem ninguém.”

Aí começou a ficar assustador. Tentou ligar para a polícia.

“Você não tem mais o implante! E nem telefone, burra!”

Aquela mulher sabia demais da sua vida! Como ela poderia saber? Ela estava no consultório? “Socorro!”

Ela saiu correndo do prédio e correu pela rua sem saber para onde, onde se esconder.

“Na casa da mãe? Da melhor amiga? Do primo?”

Onde quer que pensasse em ir, aquela mulher parecia saber também e esfregar na cara dela o quanto a conhecia e como se mostrava inútil fugir. “Não, nada disso! Eu preciso ir a algum lugar inesperado, algum lugar onde ninguém esperaria me ver.”, disse em voz alta para si mesma, se convencendo de ser um bom plano.

Quando chegou à beira da praia, se sentiu mais segura. “Não tem ninguém aqui no meio do inverno e não tem onde alguém se esconder.”. Só, no meio da areia, ficou ainda um tempo olhando ao seu redor à procura da mulher que a perseguia.

“Sozinha…”

“Sozinha…” Ela e a mulher falaram ao mesmo tempo. Como podia? Onde estava essa mulher? Impossível!

Mas, agora que haviam falado juntas, percebeu como a voz dela era parecida como a sua. Muito parecida.

“Estou ficando…”

“…louca?” Terminar as frases da outra mulher não ajudou em nada na sua lucidez. “Essa voz está na minha cabeça!”. Sim, ela ouvira a voz e não tinha saído da sua boca.

Que brincadeira era aquela? Por que tinha uma voz igualzinho à sua falando dentro da sua cabeça? Será que o técnico tinha implantado outro dispositivo? Só podia ser isso!

“Por que alguém faria uma maldade dessas? Que brincadeira de mau gosto! Eu só queria ouvir o silêncio!”. Enquanto chorava e ouvia a voz, buscou um papel nos bolsos para limpar o nariz e encontrou as recomendações pós-operatórias.

“Preciso focar em alguma coisa, esquecer a voz. Me esquecer. A voz dela. A voz!” E começou a ler, com a voz acompanhando. “Você passou por uma operação de retirada do implante coclear blá-blá-blá Se sentir algumas dores nos primeiros dias, tome blá-blá-blá Algumas pessoas podem experimentar tonteiras, que passarão dentro de blá-blá-blá ATENÇÃO”

Neste momento a voz parou e quem pronunciou as palavras foi sua própria boca: “Se você começar a escutar vozes dentro da cabeça, vozes que parecem muito com a sua e que perseguem aonde você for, procure ajuda imediata! Você provavelmente não está louco, essa voz é sua, é sua consciência, seus pensamentos. 80% das pessoas escutam essa voz pela primeira vez após a retirada do implante coclear. 90% tentam o suicídio por não saberem lidar com seus próprios pensamentos. A recolocação do implante pode ser indicada e tem resultados positivos nas pessoas afligidas de mais de 60%. Busque seu psi-engenheiro de confiança imediatamente.”

19 de agosto de 2013

Piada de mau gosto da vida

Filed under: Conto — petrusrocha @ 21:36

Do nada ela apareceu. Onde antes havia um coroa guitarrista com cheiro de cigarro e maconha – além de um péssimo hábito de afinar seu instrumento de madrugada – agora estava ela. Me disseram que morreu há uma semana. O coroa, não ela. Bem que percebi que vinha dormindo muito melhor mesmo.

A mudança foi para muito melhor. Pena do cara, mas ele nunca teve a bunda que ela tem. Aliás, tudo começou por aí: pela paixão nacional. Eu estava saindo do apê quando ela estava abrindo o seu e entrando. Só deu tempo de ver seu petit-derriére.

Petit o caralho! Era uma senhora busanfa, com nota 10 em três dos quatro quesitos da bela-bunda: tamanho, volume e apresentação. Só faltou atitude, mas aqueles poucos segundos em que a avistei foram poucos para determinar isso.

Preconceituoso, logo pensei que mulher gostosa assim, certamente era feia. Raimunda, certo. Ledo engano! A mulher era linda, olhos verdes, pele branca, cabelo negro levemente ondulado e umas sardinhas discretas para dar o toque de originalidade à beldade.

O breve instante em que a vi dentro do elevador enquanto a porta se fechava na minha cara e ela descia, me deixando estupefato onde estava, foram suficiente para me marcar. Mas o episódio deixava claro que, apesar de gostosa e bonita, claramente era escrota. Nem segurou a porta do elevador pra mim.

Eis que, no encontro seguinte, ela vem me pedir desculpas pelo ocorrido. Afirma ter se enrolado com os botões e que, quando finalmente encontrou o correto, já tinha descido dois andares. Seu jeitinho meigo e estabanado quebrou totalmente minha posição pré-estabelecida para ela de leve desinteresse combinado com sutil irritação por ter sido tirado de seu caminho.

A verdade é que me derreti por ela assim que me alcançou para pedir perdão. E me apaixonei ao perceber ser uma pessoa simpática, carismática e com um dos sorrisos mais desconcertantes já vistos na face da terra. Todas as suas sardinhas se juntam no canto de cada boca e somem numa irresistível covinha. Demais.

Mulher assim com certeza tem dono. Ou dona. Fato. Ninguém deixa esse peixão escapar. Mas entrou dia, saiu dia, semana após semana, mês após mês e nada de ver a garota acompanhada. Pelo contrário, formamos uma amizade bem gostosa e em que frequentamos um a casa do outro. Conversamos sobre filmes, livros, futebol, política.. o que quer que surgisse, ela chegava junto e papo era sempre legal.

Ninguém mais na jogada e ela ali dando condições, não tinha nem o que pensar. Finalmente parti pra cima, tomei uma atitude e convidei pra sair. Ela se fez de sonsa, disse que ia chamar uns amigos pra deixar legal, mas deixei claro que era programa para dois. Ela não se fez de rogada e aceitou.

Começamos um relacionamento fantástico, com muita cumplicidade e paixão. Ela pediu para esperarmos para ir para a cama pois o sexo sempre estragara seus relacionamentos anteriores e ela gostava muito de mim; queria ter certeza. Minha certeza não cabia mais em mim, mas eu respeitei sua vontade. Eu também estava bastante envolvido naquilo e não queria pôr tudo a perder por boba ansiedade.

Numa bela noite, quando as estrelas se alinharam, a lua parecia gigante e o espumante descia como de cascatas goela adentro, ela me disse estar pronta. Tinha certeza de que eu era o cara de sua vida e que queria dar o próximo passo. Prontamente ecoei suas palavras sentindo cada letra e me perdendo de vez naquela paixão.

Calmamente, mas com sofreguidão, nos despimos, nos fizemos carinhos, nos apalpamos e nos descobrimos. Não havia um centímetro do corpo dela que eu não tenha passado a conhecer – e ela podia dizer o mesmo de mim e do meu corpo. Eu era dela, e ela minha.

Nossos corpos se misturaram, se remexeram, dançaram e a sofreguidão só fazia aumentar. Fiz questão de esperar por ela, a primeira vez tinha que ser perfeita, nada poderia atrapalhar. Em meio à apoteose de nossos corpos, a sincronia se fez presente, anunciando a explosão que estava por vir e, no último segundo, decidi que deveria esperar que ela viesse primeiro e não perder seu rosto angelical em sua plenitude.

Assim, concentrei minhas atenções nela e deixei que a vida me desse aquele lindo presente em seu formato mais lindo. Discretamente observei cada nuance de sua face, cada expressão de seu corpo, cada cheiro de sua essência, cada som que saía de sua boca, por mais leve que fosse.

E foi nesse momento, em que todos os meus sentidos estavam completamente focados nela, que o ritmo finalmente chegou ao seu ápice e ela finalmente gozou:

“Ué!”

A surpresa foi tão grande que deve ter ficada estampada no rosto e ela achou que fosse êxtase. Não, foi horror, foi medo, foi espanto, foi… foi uma brochada épica. Como assim, no meio da foda, no ponto máximo, a mulher goza que nem o Costinha. “Ué!”

Dei uma desculpa de que estava cansado e chamei para a conchinha para dormir. Ela aceitou de bom grado, sem perceber o que estava acontecendo, e se aconchegou nos meus braços. Ela dormiu como um bebê durante toda noite, linda como sempre. Já eu não consegui pregar os olhos.

De manhã, ela me convidou para uma acordada feliz, mas disse que precisava sair cedo por conta do trabalho. Lhe dei um beijo a contra-gosto e saí de seu apartamento. Não conseguia tirar aquele episódio da cabeça! O que fazer? Uma mulher linda, gostosa, interessante, maravilhosa…

Agora tudo se explica: a falta de companheiro, o medo de transar, “sexo sempre estraga as minhas relações”. Mais é claro! Você goza que nem o COSTINHA!

Ela bate à porta chamando por mim, preocupada se estaria tudo bem comigo, com a gente. Finjo que não estou, já fui pro trabalho, me escondo, me fujo, não me quero aqui agora nem nunca mais.

Ela desiste, aceita a fuga e vai embora. Eu fico no escuro do meu apartamento, desolado. O que fazer? Isso é de menos, besteira completa. O que é um simples som frente ao amor da sua vida? Sim, o amor da minha vida! Ela é a mulher da minha vida e não há nada que possa mudar isso. Larga de ser besta e seja homem!

Resolução feita, confiança readquirida, hora de ir pro trabalho. E, de noite, mostrar pra ela que não há nada de errado, está tudo certo. Mais que certo! Está tudo perfeito!

Só que, no trabalho, me aparece o Silveira com um vídeo genial no Youtube, uma piada incrível de um comediante que ele não conhecia. O que conhecem esses moleques de 21 anos que vêm fazer estágio com a gente, além de vídeos engraçados no Youtube.

Dado o crédito aos conhecimentos do rapaz, abro o vídeo; e quem eu encontro? Ele, minha desgraça, o motivo da queda do meu império romano, meu anti-cristo: Costinha. Tão surpreso com o mau gosto para piadas do destino, fiquei ali, os olhos envidrados na tela do computador, assistindo à performance do finado.

Ainda estupefato e sem reação, em determinado momento percebo que meu corpo está reagindo sim. Uma parte dele, pelo menos. Enquanto ouvia a voz do comediante e suas arrematadas com o clássico “Ué!”, eis que minha virilidade começa a se mexer, se animar, ganhar força entre minhas pernas.

Eu luto contra aquilo, brigo com ele, mando ficar quieto; mas de nada adianta. O Costinha falava e o bicho crescia. Saí correndo do escritório, da minha vida, do mundo. Sumi. Nunca mais ouvi falar dela. Para falar a verdade, nunca mais ouvi falar de ninguém, nem de mim. Entrei para um mosteiro de padres com voto de silêncio e tenho mantido minha vida e minha mente focadas em um só objetivo: nunca mais pensar no Costinha.

11 de outubro de 2012

O Velho e o Caminho

Filed under: Conto — petrusrocha @ 14:48

No meio do caminho
havia um velho.
Havia um velho
no meio do caminho.

Com sua cadeirinha
se sentou no meio da calçada.
Com a vista alçada
acompanhava o que ia e vinha.

O rosto talhado,
o traçado de uma vida
sobre uma pele curtida
e o olhar aguçado.

Não se move,
não reage ou rege
seu rosto protege
pensamentos que demove.

Ele vê você chegar
com ou sem julgamentos
com ou sem sentimentos
e te vê passar.

E você passa sem saber
se quem se move é o mundo
ou se o velho, que bem no fundo,
é que faz o mundo se mover.

No meio do caminho
havia um velho.
Havia um velho
no meio do caminho.

27 de janeiro de 2011

Pedro, de onde veio?

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 14:30

Pedro achou a fotografia
Da mãe grávida barriguda
Mesmo preparada para este dia
A mãe soltou um “Deus nos acuda”.

Pedro “A Pergunta” fez:
“De onde foi que eu vim?
Como se fazem os bebês?”
E a mãe: “Tenha piedade de mim”.

“Pedro ainda é muito novo
Para saber de homens e mulheres
Mas não quero inventar nada de ovo,
De abelhas, de cegonhas ou outros seres”.

“Pedro, meu filho amado,
É tudo parte de um processo
O amor é algo bem complicado
Mas é fundamental para o sucesso”.

“Pedro, quando seu pai e eu nos casamos,
Nosso amor nos juntou
E quando um filho imaginamos,
Foi ele quem possibilitou”.

“Pedro, hoje um você pode ser,
Porém você já foi dois
Metade com seu pai à mercê
De juntar com a minha depois”.

“Pedro, aquele mesmo amor
Que juntou seu pai e eu
Grudou suas metades e protegeu
Na minha barriga da dor”.

“Pedro, aqui dentro fiquei te ninando
Eu cantava, você dançava
E, num dia que eu muito esperava,
Você saiu, lindo e chorando”.

Pedro só faz crescer, agora
De duas metades, em um inteiro
“Ai, mãe, vê se não chora”
Diz, todo serelepe e arteiro.

5 de novembro de 2010

Pedro pelas ruas

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 13:57

Pedro pelas ruas caminhava
Com a mãe acompanhando
Que da escola o levava
Para casa, as mãos dando.

Pedro andava distraído
A mãe chamou sua atenção
Avisou que teria caído
Se não olhasse para o chão.

Pedro para baixo olhando ia
Quase virado como carta de baralho
A mãe advertiu que o olhar levantaria
Se não quisesse bater n’algum galho.

Pedro, um olho na terra, outro na Lua,
Quando a mãe o parou, espantado
“É importante, ao atravessar a rua,
Não deixar de olhar para os dois lados”.

Pedro, faltando olhos pra tudo olhar
Parou na calçada aturdido
Já começando a choramingar
Pediu ajuda à mãe, perdido.

“Pedro, olhe atento para frente,
Veja embaixo, veja em cima.
Para os dois lados cuidadosamente
Cruzando a rua, a cada esquina.”

Pedro, agora, anda pela rua feliz
Despreocupado, não há melhor oferta
A caminho de casa, sob o céu anis,
Estar de mãos dadas com a mãe alerta.

28 de outubro de 2010

Super Pedro, super doente

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 16:52

“Pedro, meu filho coitado
Com gripe, fique deitado.”
“Quem disse que estou doente?
Tenho é superpoderes, é evidente!”

“Pedro, meu filho febril…”
“Febre? Onde já se viu?”
Ele diz ter o poder de esquentar:
“Com o corpo em chamas vou ficar!”

“Pedro, meu pobre filhinho,
A febre te deixou suadinho.”
“Febre e suor, do que está falando?
Em água meu corpo está se tranformando!”

“Pedro, e esse espirro feio?”
“Cuidado, mãe, pra não ficar no meio.”
“Como assim, filho, não entendo?”
“Estou é treinando meu sopro-vento!”

“Pedro, pare de bobeira,
Doença não é brincadeira.”
“Ai, mãe, não brigue pois eu não minto,
Achei ser super, mas fraco é como me sinto!”

“Pedro, logo-logo você fica bem,
É só descansar e beber água também.”
“Quando crescer, o super-homem eu vou ser
Além de um super-médico, você vai ver!”

29 de setembro de 2010

Pedro e a Lua

Filed under: Conto,História de Pedro — petrusrocha @ 23:13

Pedro, o serelepe
Triste, sai do colégio sério
Sua mãe tira seu quepe
E tenta resolver este mistério

– Pedro, o que acontece?
– Ai, mãe, algo me entristece
– Conte-me, filho, se é que consegue
-Ai, mãe, é a Lua que me persegue

Pedro, o inventivo
Deixa a mãe perplexa
Que situação complexa
A de ter um filho criativo

Pedro, a face franzida
Mostra à mãe divertida
Que é séria a situação
E não para gozação

Pedro, o perseguido
Pelo terceiro dia seguido
Acusa o rosto redondo da lua
De acompanhá-lo pela rua

Pedro, cheio de medo
Aponta para atrás da escola
E a mãe, com ar surpreso
Vê o satélite que descola

Pedro tinha razão
Diz a mãe olhando o edifício
Parece um espião
Pensar distinto é difícil

Pedro e a mãe, de mãos dadas
Seguem seu caminho, calados
Disfarçadamente dando olhadas
E ficando sempre espantados

Pedro jantou sem fome
E a mãe o deixou cedo dormir
Não queria o filho insone
Para a sua cisma diminuir

Pedro acorda assustado
Com o luar invadindo seu quarto
A mãe, quase tendo um infarto
Escuta o filho revoltado

Pedro, com a Lua, se exalta
E com ela a educação falta
Deixa a mãe, atrás da porta
Ruborizada enquanto o exorta

Pedro fez por onde
E espantou o celeste astro
Que atrás das nuvens se esconde
Some sem deixar rastro

Pedro, o exitoso
Dorme o sono descansado
A mãe, feliz com o vitorioso
Beija sua testa com um orgulho danado.

Para Pedro, meu xará super criativo de 3 anos
e sua mãe Juliana

1 de setembro de 2010

Diário de Merda – The Good, the Bad and the Ugly

Filed under: Conto,Diário de Merda — petrusrocha @ 17:11

Das coisas que as mulheres fazem para manipular os homens, elogios é o que funciona que é uma beleza comigo.

Estou tentando sair com uma vizinha que é gata demais e acabou de terminar o namoro. Trabalho de ombro amigo, mas sempre elogiando ela. “Você é linda demais para ficar assim. Aquele babaca não te merece.” Essas cafajezices que homens falam e as mulheres sabem o que são.

Mas funcionam. Ela me deixou entrar na sua vida e volta e meia jantamos juntos na sua casa. Estamos nos conhecendo.

Fato é que eu gosto de cozinhar, então sempre ajudo na cozinha. Corto isto, mexo isso, pego aquilo. Quando percebi, já estava instaurado que eu sou o cortador oficial de cebolas. Porra! Odeio cortar cebolas!

A seguir, passei a acumular o cargo de limpador oficial de carne. Você sabe quanto tempo eu passo limpando a porcaria da carne, tirando cada gordurinha que ela não gosta?

Como eu cheguei onde estou? Tudo por causa dos malditos elogios. “Nossa! Você corta a cebola tão melhor que eu! Olha como fica pequenininha!” ou “A carne está maravilhosa! Como você conseguiu limpar tão bem sem jogar fora metade da carne?”
– Segredo de Família.
Ok, eu também não me ajudo. Burro!

O lado bom disso é que passamos muito tempo juntos conversando e nos conhecendo. Acho que tenho futuro aí.

Merda de Hoje: The Good, the Bad and the Ugly

Hoje, especificamente, fui três vezes ao trono. Não me senti mal ao longo do dia, mas as vontades de reinar vieram e fui lá realizar o desejo dos meus súditos e jogá-los na piscina.

O primeiro nasceu bonitinho, sem problemas, tudo como deveria ser. O segundo não saiu legal, não muito sólido e me deixou meio mal na hora. Agora, o terceiro foi horrível. Sem forma, fedendo horrores, me deixou frouxo e me sentindo um saco de batatas vazio.

Pensando aqui com os meus botões o porquê disso, só me vem à mente a salada que comi no almoço. Viu? Fico querendo ter uma alimentação “saudável” e é nisso que dá.

Moral da História: Essas coisas naturais fazem mal à saúde.

31 de agosto de 2010

Diário de Merda – Avatar

Filed under: Conto,Diário de Merda — petrusrocha @ 09:49

Hoje vieram no trabalho me perguntar por que eu sou corcunda, por que não faço um RPG ou pilates. Eu dei a resposta-padrão (”É porque tenho medo de altura. HAHAHA”) e saí de perto.

Eu até acho que deveria mesmo ir a um RPG ou pilates, fazer um alongamento com reforço muscular e ficar com uma postura mais bonita e saudável. Talvez até sumiria com a barriguinha no processo. Mas a questão não é essa.

A questão é que são eles que deveriam pagar as minhas aulas. Todas essas pessoas de estatura mediana ou baixa. Todos para quem me abaixei para beijar no rosto ou abraçar e conversarmos cara-a-cara. Todas as mulheres com quem fiquei, namorei ou cantei numa festa. Todos os fabricantes de móveis e quem os comprou para eu sentar na escola ou no trabalho, ficando torto, desconfortável e sem me encaixar direito. Todos que fizeram e aprovaram as portas de ônibus, trens e carros. Todos.

E, dentre todas as pessoas que mais ferraram com a minha coluna, as que se destacam são as donas de cachorro que não catam as merdas deles das ruas. Desde pequeno essas bostas sempre insistem em serem pisadas pelos meus pés. Desde pequeno, ando pelas ruas corcunda, olhando para baixo e tentando me esquivar do campo minado fecal. Malditos!

Se não fosse por esse pessoal, eu seria apenas  um cara alto, com uma postura normal e sem dores nas costas. E ainda vêm me dizer que tenho que fazer RPG e pilates… Eu sei! Paga aí!

Merda de Hoje: Avatar

Passei o dia soltando muitos suspiros anais e achando que estava passando mal. No fim, foi meditar e saiu tudo normal. É um Avatar all over again: prometeu, prometeu, prometeu e chegou na hora, não era nada demais.

Acho que os suspiros têm alguma conexão ainda com os burritos.

Moral da História 1: Burritos têm feijões de ação prolongada.

Moral da História 2: Não confie em publicidades do James Cameron.
(a não ser em O Exterminador do Futuro 2)

30 de agosto de 2010

Diário de Merda – Explicação

Filed under: Conto,Diário de Merda — petrusrocha @ 19:22

Diário de merda é um projeto de vários contos com uma mesma unidade cujo centro é o diário que um cara em tratamento psicológico que fala da sua vida, suas neuras e da sua merda. Só que, como gosta de cinema, dá sempre um título para a merda que faz.

A idéia é ter vários posts que formarão o diário de merda do personagem principal.

Não é sobre escatologias (ok, tem um pouquinho de escatologias, mas não é só sobre isso), e sim sobre o cara.

Espero que dê certo…

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